Mais que frase

Quem conta é o Millor: Em 1940, Paris ocupada pelos nazistas, dois oficiais alemães, diante do horripilante painel Guernica, perguntaram a Picasso: "Foi o senhor quem fez isto?" Ao que o intrépido pintor respondeu prontamente: "Não, foram os senhores."

Detetive Perpétuo: 45 anos

O texto que reproduzo neste post, foi publicado alguns dias depois do assassinato do Detetive Perpétuo, em 1o. de setembro de 1964.

Infelizmente, não posso precisar a data, o jornal em que foi publicado, nem seu autor.

Guardo o recorte há 45 anos, com muito orgulho do que meu pai representava naqueles tempos.

A morte de um homem bom

Este não é o elogio cômodo a um homem morto, mas o testemunho de um repórter de polícia que com ele conviveu durante mais

mortehomembomde dez anos.

Antes do policial valente e decidido, Perpétuo de Freitas era, sobretudo, um homem generoso.

Durante sua trajetória como caçador de bandidos, conquistou a estima e a gratidão das populações faveladas, a quem sempre protegeu, e o respeito dos marginais que nele identificavam um agente inflexível da lei, mas nunca um espancador ou torturador.

Era justamente esse respeito que levava os piores bandidos a se entregarem a Perpétuo, por saberem que “a um preso de Perpétuo não se espanca”.

Os que se atreveram a reagir contra ele nunca souberam realmente o que estavam fazendo e nunca tiveram a chance de sabê-lo.

Durante a gestão do general Amauri Kruel, Perpétuo ficou em posição de evidência, mas foi sob a chefia do então coronel Barros Nunes, o Cacau, que pôde desenvolver toda a sua atividade de detetive excepcional.

Cacau encarregou-o de moralizar a célebre Favela do Esqueleto e foi ali, onde acabou morrendo, que deu a grande demonstração de suas qualidades humanas: livrou o lugar de marginais, abriu pequenas ruas, construiu escola, posto médico e chegou a promover competições esportivas entre filhos de favelados.

Um detalhe: essas obras foram realizadas pelos próprios favelados sob a direção de Perpétuo, que obrigava os “menos amigos do trabalho” a limpar o Esqueleto, empregando-os numa atividade útil que lhes ocupava o tempo e impedia que se atirassem ao crime e aos vícios.

Perpétuo mudou o nome do lugar para Vila São Jorge e passou a chefiar o posto policial.

Jornalista e radialista, Perpétuo era ligadíssimo aos colegas da imprensa e muitos planos de caçadas a bandidos perigosos foram traçados na antiga sala de imprensa da Polícia Central.

Seria necessário muito espaço para resumir, apenas, o muito que a Cidade fica devendo a este seu incansável defensor.

A foto foi tomada depois de uma vigília de 24 horas no Morro da Mangueira, ao lado do repórter Vicente Coscordo, quando Perpétuo prendeu o famoso Mauro Guerra.

Parece impossível concebê-lo morto; e só mesmo a Polícia provou que Perpétuo não era imortal.

Como os nazistas… Cap. II

Nos domingos passados:

Apresentação. Como os nazistas ganharam a guerra
Capítulo I. Das ambiguidades e contradições de um estranho amor

Hoje:

Capítulo II - Dr. Strangelove: ficção ou realidade?

Mezzo a mezzo

Dr. Strangelove é mera personagem. O filme se baseia em ficção, em um romance e não em fatos reais. Mas, no romance e no filme, o Strangelove tem tudo a ver com um daqueles cérebros do Reich, disputados por ingleses, franceses, russos e (não poderiam ficar de fora) americanos, bem antes do finzinho da guerra e no pós-guerra.

Como a lista de Osenberg quase desceu pelo cano

Para evitar que a inteligência nazista fosse parar na Rússia comunista, os ianques logo montaram a operação Paper-Clip.

Dizem que o nome Paper-Clip estaria ligado à Lista de Osenberg, a famosa lista que Wener Osenberg, da Universidade de Hannover, preparara a pedido de Hitler que, preocupado em recuperar as forças alemãs após a derrocada na frente russa, queria reunir seus melhores cientistas para recompor e agilizar a máquina de guerra nazista.

Existe uma historiazinha de muito mau-gosto sobre a lista do Osenberg que explicaria por que o nome Paper-Clip teria sido atribuído à operação de coleta de cérebros nazistas. A tal lista teria sido encontrada num banheiro por um polonês que, ao dar a descarga, notou que o vaso estava entupido.

Tentando desentupir a privada, o polonês encontrou fragmentos da lista, que acabaram chegando às mãos dos americanos. Com os fragmentos da lista organizadamente fixados por clipes de papel, os ianques tinham por onde começar sua busca de cérebros.

Tem gente que acredita mesmo em tudo

A historinha da lista encontrada pelo polonês na privada é de mau-gosto e muitíssimo mal contada. Não há resposta às perguntas:

  • Como é que a lista foi parar no banheiro?
  • Que raios de banheiro era esse?
  • A qualidade da tinta e do papel alemães deveria ser excepcional para a época, à prova de água e outras substâncias nocivas encontradas não só, mas comumente em privadas de uso público.
  • O que o polonês havia comido?
  • Como a lista foi parar do banheiro do polonês até o QG americano?

E, na minha opinião, a pergunta definitiva:

  • Se eram americanos, por que não usaram fita durex em vez de clipe de papel?

Acredite quem quiser.

Nem do contra, nem inteligente

Se a origem do nome Paper-clip é essa mesma não afeta nosso raciocínio. É de importância secundária. A operação existiu mesmo e está aí o google para provar que desta vez não estou inventando nada.

É fácil encontrar na web inúmeras listas dos “importados” na operação do clipe de papel. Algumas listas até especificam área de conhecimento, especialização e crimes de guerra de cada figurão ou figurinha nazista.

Dão muito destaque à inteligência, mas falam pouco da contra-inteligência e é disso que vamos tratar no próximo capítulo: a questão da contra-inteligência nazista é o que será revelado no Capítulo III - A ameaça vermelha.

Nos próximos domingos:

Capítulo III. A ameaça vermelha!
Capítulo IV. Revelada a cena nunca vista mais comentada no cinema mundial

Como os nazistas… Cap. I

No domingo passado:

Como os nazistas ganharam a guerra - Apresentação

Hoje:

Capítulo I. Das ambiguidades e contradições de um estranho amor

Estranho amor

Dr. StrangeLove, interpretado magistralmente por Peter Sellers, é uma das melhores personagens criadas por Stanley Kubrick em 1963. Mesmo não sendo a personagem principal acabou dando nome ao filme.

E o título inicial, que passou a subtítulo, não era de se jogar fora: Como aprendi a parar de me preocupar e passei a amar a bomba.

De estranho e fantástico todo mundo tem um pouco

No Brasil, o título e a personagem viraram Dr. Fantástico. Uma fantástica falta de imaginação!

Afinal, a mera tradução literal, Dr. Estranho Amor (como fizeram em Portugal), preservaria a ambigüidade do Inglês, instigando a curiosidade do público: dentre tantas possibilidades do amor, qual seria a estranheza desse amor?

Parece que, aqui no Brasil, alguém deve ter achado que amor estranho não poderia ser coisa boa. Deveria ser alguma pouca-vergonha, uma safadeza daquelas. Deve ter sido isso. Nem se cogitou da estranheza de se amar a bomba.

Assim, Dr. StrangeLove virou Dr. Fantástico.

Almas gêmeas

No filme, a personagem do StrangeLove parece mais contraditório do que ambíguo.

Com toda a pinta de ex-nazista, criminoso de guerra da pesada, StrangeLove assessora o Mr. President. Apesar de ser um dos principais guias do Mr. President, StrangeLove não pode se valer das próprias pernas: precisa que alguém lhe empurre a cadeira de rodas. Verdadeiras almas gêmeas!

A mão saúda o antigo senhor

A mão saúda o antigo senhor


Olha essa mão aí, rapaz!

Deve haver outros detalhes contraditórios de que não me lembro.

O mais contraditório (e divertido) é que o StrangeLove sofre da terrível SMDD ou Síndrome da Mão Direita Doidona, com vontade própria.

Não deve ser fácil ter uma mão direita metida a sinistra.

Vestida em lúgubre luva de couro negro, a destra fica quietinha, inerte e à espreita.

Espera o melhor momento para aprontar travessuras como a saudação nazista ou atacar o próprio dono, tentando esganar seu pescoço.

A salvação (até quando?) é que sempre que a direita tenta esganá-lo, StrangeLove conta com a brava intervenção da fiel esquerda que, com seus golpes violentos. sempre consegue libertá-lo.

A esquerda impede que a fúria da direita esgane StrangeLove

A esquerda impede que a fúria da direita esgane StrangeLove

O sonho de um mundo novo

Mein Fuhrer! I can walk AGAIN!

Mein Fuhrer! I can walk AGAIN!

Quando não há mais como deter o último B52 americano e o consequente contra-ataque da máquina russa do juízo final, o pessimismo toma conta de todos, menos de StrangeLove.

Para ele, nem tudo está perdido.

Pelo contrário, é a grande e sonhada oportunidade de criar um mundo novo.

Com evidente excitaçãozinha crescente, StrangeLove expõe seu novo velho plano:

Primeiro, providenciar minas de carvão bem profundas a serem usadas como abrigos subterrâneos.

Em segundo lugar, equipá-las com estufas para garantir produção agro-pecuária.

Por fim, o auge do plano:

Selecionar um grupo de seres humanos, de saúde e genética superiores, a fim de formar uma nova raça.

E StrangeLove ergue-se da cadeira de rodas e grita emocionado:

- Meu Fuhrer! Eu posso andar!

E os nazistas ganham no final

No filme, Estados Unidos e Rússia, que haviam sido aliados contra o holocausto imposto pelos nazistas na segunda grande guerra, acabam se destruindo e provocam um holocausto ainda maior e derradeiro.

Sobreviveriam apenas os humanos de uma raça suprema, formada exclusivamente por “seres sadios e puros”, os tais ubermensch ou super-homens, submetidos a uma rigorosa ordem militar em um mundo subterrâneo.

É a possibilidade de realização do grande sonho de um novo mundo nazista que dá forças a StrangeLove para se erguer da cadeira de rodas e voltar a caminhar. Milagres de um estranhíssimo amor!

No próximo capítulo

É fato que, por meio de operações espetaculares como a do clipe de papel, grande parte da inteligência nazista, formada por tipos como o StrangeLove, foi levada para os Estados Unidos e para a Rússia.

A questão, a ser revelada no próximo capítulo, é se a personagem Dr. Strangelove é fictícia ou baseada em fatos reais.

Nos próximos domingos

Capítulo II. Dr. Strangelove: ficção ou realidade?
Capítulo III. A ameaça vermelha!
Capítulo IV. Revelada a cena nunca vista mais comentada no cinema mundial

Como os nazistas ganharam a guerra - Apresentação

Enchendo linguiça

Trabalho acumulado durante a semana, cursinho das 8 às 17h aos sábados, grama já virou matagal de quase 30 cm no quintal, barba por fazer… Vida de sempre e nenhum tempo para atualizar este blogue.

Aproveito para ressuscitar uma série antiga, Como os nazistas ganharam a guerra, já publicada alhures, mas, por respeito à falta de interesse dos leitores, nunca publicada na íntegra.

A série foi escrita há tempos, quando participava de uma dessas redes sociais que existem por aí. Em meio a uma discussão sobre movimentos neonazistas, não me lembro mais por que citei a operação paper-clip, uma operação realizada pelos EUA para disputar com os russos a posse de cientistas e pesquisadores, a elite da inteligência nazista, no final da segunda grande guerra.

Como a garotada não conhecia essa história, tentei escrever algo sobre o tema, sem dúvida, bastante desagradável.

O que Kubrik tem a ver com isso?

Fiquei imaginando como tentar suavizar um pouco a aridez do tema, sem ceder ao lugar comum das teorias conspiratórias associadas ao episódio e foi assim que cheguei ao filme do Kubrik, Dr. Fantástico, que transforma em comédia o que, em princípio, tinha tudo para ser um dramalhão.

Dando uma passadinha no teatro

Programa da montagem nos anos 70

Programa da montagem nos anos 70

Explico. No verão de 1974, a companhia Fernando Torres Diversões promoveu um festival de repertório. Eram apenas o Fernando Torres, a Fernanda Montenegro e o Zanoni Ferrite apresentando uma peça por dia no teatro João Caetano, durante uma semana inteira, com casa cheia todos os dias.

Sai um Strindberg com limão azedo!

Uma das peças foi o Seria cômico… Se não fosse sério.

Originalmente, era A dança da Morte, de August Strindberg, autor sueco do século XIX, famoso pela fragmentação do drama em cenas, cada uma com tensão própria. Só que ele era chegado a um realismo/naturalismo psicológico em que tudo acabava em um baita dramalhão.

Pra rebater, baixa um Durrenmat

No final de 1968, Frederico Durrenmat, dramaturgo alemão, fez uma adaptação da Dança da Morte e batizou-a como Play Strindberg (Representar Strindberg).

A adaptação é genial. Usando um distanciamento típico do teatro alemão dos anos 30 e mais uns temperos pós-moderninhos, Durrenmat transformou uma tragédia matrimonial na “comédia das tragédias matrimoniais”.

Poucos anos depois, a companhia do Fernando já estava montando a peça com o ótimo título da tradução brasileira:
Seria cômico… Se não fosse sério.

Voltando pro cinema

Cinco anos antes de Durrenmat criar o Play Strindberg, Kubrik fizera algo semelhante no filme Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar e passei a amar a bomba, transformando uma trama de espionagem em comédia de humor negro.

A história de espionagem era o livro Alerta Vermelho. Não lembro o autor, mas ele topou a idéia do Kubrik e ainda foi corroteirista do filme.

Brevíssima sinopse incompleta ou o que lembro vagamente do enredo

No filme, o general Jack. D. Ripper (ou Jack, o estripador), acredita que os russos estão fazendo lavagem cerebral nos americanos, colocando substâncias químicas nos reservatórios que abastecem as águas das cidades. O general fecha o quartel e envia bombardeiros B52 para um ataque nuclear à Rússia.

Na sala de guerra do pentágono, o Mr. President reúne assessores, como o General Turgidson (literalmente, filho de uma bolha de gases) e o Dr. Strangelove (estranho amor), com toda pinta de criminoso nazista, mais o embaixador soviético, o camarada Sadesky (sádico).

Sadesky adverte que, em caso de bombardeio nuclear em solo russo, o mecanismo da máquina do juízo final será acionado automaticamente. Será o fim do mundo e nada poderá ser feito para impedi-lo.

kingkongDepois de muitas trapalhadas, eles conseguem que todos os aviões retornem, com exceção de um.

Na penúltima cena, King-Kong, o piloto texano do último B52, dispara, mas a bomba fica presa. King-Kong desce até a bomba e a libera manualmente.

A bomba cai levando King-Kong sentado. Satisfeito pelo dever cumprido, primeiro o piloto bate com as mãos no peito (previsível, muito previsível).

Depois, como bom texano, sacode o chapéu de caubói no ar enquanto mantém o equilíbrio na bomba que cai corcoveando.

A cena final é uma sucessão de explosões atômicas com a música We’ll Meet Again ao fundo, cantada por Vera Lynn, grande sucesso entre os americanos que partiam para a segunda grande guerra.

Originalmente, a cena final não era essa, mas foi considerada imprópria para o momento que os Estados Unidos viviam no final de 1963, logo após o assassinato do Kennedy, quando o filme estava sendo finalizado. Por muito tempo, foi considerada a cena nunca vista mais comentada na história do cinema.

Nos próximos domingos

Capítulo I. Das ambiguidades e contradições de um estranho amor
Capítulo II. Dr. Strangelove: ficção ou realidade?
Capítulo III. A ameaça vermelha!
Capítulo IV. Revelada a cena nunca vista mais comentada no cinema mundial

Foto da semana

Farinha do mesmo saco


Bagaço da mesma cana

Bagaço da mesma cana

É crer para ver!

Segundo o The Guardian, na próxima semana, a Budweiser lançará uma campanha na TV inglesa, usando All Together Now dos Beatles como tema musical.

O clipe nos coloca espiando pela janela de algo como um metrô de superfície. Para isso, levaram cinco dias e 50 horas de edição para sincronizar áudio e vídeo, mas não gostei do resultado: tudo aparece pequenininho demais.

Como a exibição tenta acompanhar o ritmo da música, mal dá para ver o desfile de imagens pretensamente bizarras, como uma abelhona saltitando em uma minicama elástica.


Muitíssimo mais interessante é a sequência da imagem repetida de um bigodudo de chapéu coco que move os lábios com os dentes cerrados, acompanhando o refrão no finalzinho de All Together Now, no Submarino Amarelo.

Apesar dos seus quarenta e tantos anos…



No clipe da Budweiser, quem faz o cover da música dos Beatles é o The Hours, que teve um clipe polêmico com a música See the light.

Na verdade, no clipe, mais do que a música, os destaques são a atuação da Sienna Miller (completamente diferente da Nikki, do filme Alfie, o sedutor) e a direção do ótimo Tony Kaye.

Talvez até as vacas estripadas chamem mais atenção do que o fundo musical.



Para o comercial da Budweiser, o The Hours gravou o cover de All Together Now em um quarto de hotel, usando sons orgânicos (na opinião deles) na percussão: a batida de um extintor de incêndio no aquecedor do quarto.

O resultado condiz com tanta falta de criatividade.

Coverzinho muito chulé!

Sei que é covardia comparar, mas um dos covers de que mais gosto é o do What a Wonderful World, do Joey Ramone, que também acabou virando comercial da Coca-Cola.

Visualmente, o comercial é horroroso, mas a versão do Joey é de fazer o próprio Armstrong rebolar.



E, por falar no Joey…

parece que enfim acabou a pendenga jurídica sobre direitos autorais e um segundo CD de inéditas do Joey sairá ainda este ano.

É crer para ver!

Seja impune, seja marginal

Seja impune, seja marginal (1)

Elias Maluco gozava de liberdade condicional quando assassinou cruelmente o Tim Lopes em 2002. Foi condenado a 28 anos e seis meses de prisão em regime integral, ou seja, cumprimento da pena completa.

Semana passada, o advogado conseguiu mudar a pena para que, depois de completado um terço, o réu tenha direito a regime semiaberto ou liberdade condicional. Como já cumpriu sete anos, o matador cruel poderá voltar às ruas durante o dia, retornando à cadeia só para dormir.

Em sua crônica de hoje na Folha, Ruy Castro comenta:

Elias Maluco à solta, de chinelo e bermuda nos fundos de uma birosca, é, de fato, uma ameaça. Mas não maior que a dos calçudos e engravatados por trás dele.

Seja impune, seja marginal (2)

Deu na Folha: segundo o Ministério Público, em 2003, no Mato Grosso do Sul, o ex-atleta Zequinha Barbosa e seu ex-assessor Luiz Otávio Flores da Anunciação submeteram à prostituição três adolescentes, que na época tinham 13, 14 e 15 anos. As meninas estavam em um ponto de ônibus e foram contratadas para acompanhá-los a um motel, onde teriam mantido relações sexuais.

Em 2004, em primeira instância, Zequinha foi condenado a cinco anos de reclusão e Anunciação, a sete. No ano seguinte, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul os absolveu.

A Procuradoria Geral de Justiça do estado recorreu e o caso chegou ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) que, em sentença de 5 de maio passado, considerou não ser crime manter relações sexuais com menores de 18 anos que sejam prostitutas.

Para os excelsos ministros, o crime previsto no artigo 244-A do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) não abrange o cliente ocasional e “só seria grave se as garotas tivessem sido iniciadas na prostituição por eles”.

A decisão absolveu os dois acusados de exploração sexual de adolescentes.

Sem justiça, existe democracia?

Garotada danadinha

Podres poderes

A um ano da eleição presidencial, a oposição (que é oposição apenas porque disputa o poder, sem qualquer proposta de governo diferente do que está aí), propõe mais uma CPI. Mero jogo de cena, só para ganhar as luzes dos refletores. Mais uma CPI que não vai apurar nada, nem vai punir ninguém.

A Petrobras, alvo da nova CPI, toma suas providências:

  • Apesar do inchaço da cumpanherada na folha de pagamento, contrata uma empresa de comunicação para assessoria específica em uma CPI que nem foi ainda aprovada no congresso.
  • Cria um blog, divulgando e comentando perguntas de jornalistas antes mesmo de respondê-las aos interessados.

Com essa tentativa de esvaziar a motivação para a CPI, a Petrobras acabou gerando o início de uma oportuníssima discussão sobre os critérios éticos adotados pela sua administração atual. Mancando com o tiro no pé, recuou e anunciou que decidira aguardar a publicação das matérias jornalísticas antes de divulgar informações no blog.

Uma luz no fundo do poço

Como “protesto por ver uma empresa com mais de 50 anos de história, pertencente ao povo brasileiro, ser usada de maneira ridícula para atacar um dos pilares de uma sociedade democrática chamado imprensa livre”, um estudante de publicidade, criou em 20 minutos um blog com domínio semelhante (petrobrasdadosefatos.wordpress.com) parodiando o blog oficial (petrobrasfatosedados.wordpress.com) e layout semelhante, com o toque sutil dos narizes de palhaço nas imagens de trabalhadores no banner.

petro_fatosdados

Nos posts, o garoto mostra como o blog oficial da Petrobras distorce fatos (Blog da Petrobras: Transparência nebulosa II), só permite comentários da cumpanherada (O blog da Petrobras e seus comentaristas), responde de forma incompleta ou foge toscamente da resposta (Transparência Nebulosa) e muito mais. Imperdível!

O melhor de tudo é que o comportamento arrogante, antiético e inaceitável da atual administração da Petrobrás fica definitivamente desmoralizado pela inteligência e irreverência (e um pouquinho de molecagem) de um garoto.

Com uma garotada assim, dá para ter esperança no futuro!

Lembranças de Ponta Porã

Sou extremamente grato ao Celso Villas Boas que me enviou os exemplares das edições de 29 de abril e 6 de maio, em que O Jornal Regional, de Ponta Porã, MS, homenageou um de seu filhos: o detetive Perpétuo. Reproduzo abaixo um trecho da publicação.

jornalregionalPonta Porã tem filhos que foram destaques por esse Brasil afora. Em uma nova história, o militante político Mauro Velilha relata a vida de Perpétuo Freitas da Silva, um jovem pontaporanense que chegou à antiga Capital Federal, a cidade do Rio de Janeiro, para ser um respeitado delegado na década de 1950.

No vilarejo de São Thomas, em Ponta Porã, perto da atual fazenda 3 Coxilhas, foi a moradia da família do casal Antonio Silva e Generosa de Freitas, nos anos 40. O casal teve vários filhos, entre os quais, Perpétuo.

Na época, o menino Perpétuo auxiliava os pais na lida do sítio. No descanso e tempo disponível, o então garoto gostava de caçar passarinho e pescar nos riachos da região. Mais tarde, ’seo’ Antonio Silva, compreendendo que os filhos deveriam estudar, resolveu mudar com a família para a cidade, fixando residência na rua Maracaju do antigo bairro Monte Castelo, hoje região central de Ponta Porã.

Nesse tempo, o futuro detetive carioca cursou o ginasial, no extinto colégio Dom Bosco. Na ocasião, por ser atleta e afável orador, foi escolhido entre os colegas para discursar na recepção do então presidente da República, Getúlio Vargas, que visitaria Ponta Porã para propagar e vistoriar o programa de governo Marcha para o Centro~Oeste.

No estrado do ato público, Perpétuo alcançou êxito. Sua oratória causou alegria na comitiva presidencial, de tal maneira que o mandatário da Nação Brasileira rompeu o protocolo por várias vezes para cumprimentá-lo.

O chefe da segurança presidencial era o saudoso Filinto Müller, matogrossense de Cuiabá. Igualmente exercia a Diretoria Geral de Polícia do então Distrito Federal. Müller, ao deparar-se com Perpétuo de Freitas foi mais adiante, estendendo uma oferta de trabalho no Rio de Janeiro e proporcionando a oportunidade de um curso de detetive na Academia de Polícia carioca.

Perpétuo, após consultar os pais, concorda com a oferta de emprego. Em uma manhã fria no aeroporto da Princesinha dos Ervais, despede-se da família e dos amigos e segue em um avião militar com destino à antiga capital do Brasil.

Na Cidade Maravilhosa, a recepção e hospitalidade foi de Filinto Müller que imediatamente encaminhou seu conterrâneo à Academia de Polícia e assim conseguiu formar Perpétuo, um excepciional detetive da época.

O detetive Perpétuo, ilustre filho desconhecido de Ponta Porã, então cidade do interior do Mato Grosso Uno, passou a atuar como delegado e desvendou vários casos policiais. Seus procedimentos para encontrar uma violação da lei penal era o uso do diálogo, jamais a tortura. Muitas vezes, alguns malfeitores auxiliavam na elucidação dos crimes, fornecendo informações exatas.

Com isso, esse ilustre cidadão fronteiriço chegou ao auge da carreira como delegado. A crônica policial carioca estampava todas as semanas um artigo sobre o seu trabalho. Ganhou também assunto de destaque na mídia nacional, pois descobriu e prendeu nas favelas e nos morros cariocas os autores do assalto do trem pagador, conhecido mundialmente como um dos crimes de maior repercussão na área policial. Inclusive esse episódio virou tema de filme, com o ator Reginaldo Faria no papel principal.

Esse delito, diga-se de passagem, foi acontecimento dos jornais do exterior. Além do mais, esse filho de Ponta Porã conseguiu naquele período todas as honrarias policiais.

Nesse meio tempo, aproveitando férias, o já famoso detetive vem a Ponta Porã onde é recepcionado por familiares, amigos e admiradores em jantar de gala oferecido no então restaurante do falecido Ivo da Baiúca. O evento foi espetacular. No ensejo, o célebre detetive, após a ceia, discursou de improviso para os convidados, destacando a necessidade de o município de Ponta Porã ter um filho legítimo na Câmara Alta Federal, atual Congresso Nacional.

Naquela noite só faltou se apresentar como pré-candidato. Isso não ocorreu, horas depois, por questão familiar. Mas, se existir curiosidade sobre a matéria, é só indagar seus amigos de infância, Nilo Machado ou Jorge Maciel. Esses realmente sabem do caso. Não cabe comentarmos a história.

Terminadas as férias, Perpétuo volta ao Rio de Janeiro e é escalado em uma missão no morro da favela da Rosinha: o encargo de investigar o crime conduz ao êxito. Todos os ennvolvidos da quadrilha foram presos.

Novamente, Perpétuo volta às manchetes dos jornais e de toda a imprensa como detetive de sucesso. Isso trouxe um caos no meio policial, por causa da inveja dos colegas que não aceitavam tal situação. E ele, dentro desse órgão policial recebe sua sentença de morte, ou seja, Perpétuo foi morto em uma emboscada pelos próprios companheiros de serviço. Só que até hoje essa morte não foi esclarecida pelo Governo.

Enquanto vivo, Perpétuo enalteceu e engrandeceu seu Estado, sua Princesinha dos Ervais, com suas atitudes. Foi um profissional de brio, um amigo leal de quem até hoje guardamos grandes recordações. Na gestão de um amigo, então prefeito, Perpétuo foi homenageado com seu nome atribuído a uma rua no atual bairro Monte Castelo.

Perpétuo caiu no no ostracismo. Poucos conhecem sua história, mas ficará·vivo na lembrança dos seus familiares e poucos amigos.

Como se vê, Ponta Porã tem ilustres filhos desconhecidos que foram destaques onde atuaram.

Notas:

  • O detetive Perpétuo nunca conseguiu chegar a delegado de polícia.
  • Em uma única vez, Perpétuo foi candidato a cargo eletivo. Apesar de getulista de coração, não conseguindo legenda no PTB, foi candidato a vereador do Distrito Federal em 1954, pelo PTN, Partido Trabalhista Nacional, formado por dissidentes do PTB. Não se elegeu. Faltaram-lhe cerca de 750 votos para assegurar uma cadeira na Câmara de Vereadores. A derrota nas urnas de certa forma não o surpreendeu: Perpétuo sabia que grande parte do enorme público que sempre prestigiava seus comícios não tinha direito a voto.

Lição do dr. Sobral Pinto

Em 19 de maio, Augusto Nunes escreveu sobre a possível libertação de Suzane Von Richthofen, presa pela morte dos pais, gerando comentários que o levaram a um segundo artigo, A falta que faz um Sobral Pinto, em que cita trechos de uma carta do dr. Sobral Pinto ao poeta Augusto Frederico Schmidt, de 1944, que, mais do que uma luminosa aula de Direito, é uma lição de vida irretocável.

”O primeiro e mais fundamental dever do advogado é ser o juiz inicial da causa que lhe levam para patrocinar”, ensina à certa altura. “Incumbe-lhe, antes de tudo, examinar minuciosamente a hipótese para ver se ela é realmente defensável em face dos preceitos da justiça. Só depois de que eu me convenço de que a justiça está com a parte que me procura é que me ponho à sua disposição”. A regra vale também para velhos amigos? Claro que sim: ”Não seria a primeira vez que, procurado por um amigo para patrocinar a causa que me trazia, tive de dizer-lhe que a justiça não estava do seu lado, pelo que não me era lícito defender seus interesses”.

Outros trechos ensinam a proteger os códigos éticos da profissão de socos e pontapés hoje desferidos tão rotineiramente: ”A advocacia não se destina à defesa de quaisquer interesses. Não basta a amizade ou honorários de vulto para que um advogado se sinta justificado diante de sua consciência pelo patrocínio de uma causa. (…) O advogado não é, assim, um técnico às ordens desta ou daquela pessoa que se dispõe a comparecer à Justiça. (…) O advogado é, necessariamente, uma consciência escrupulosa ao serviço tão só dos interesses da justiça, incumbindo-lhe, por isto, aconselhar àquelas partes que o procuram a que não discutam aqueles casos nos quais não lhes assiste nenhuma razão”.

A aula termina com palavras que deveriam ser reproduzidas em bronze nos pórticos e auditórios das faculdades de Direito: ”É indispensável que os clientes procurem o advogado de suas preferências como um homem de bem a quem se vai pedir conselho. (…) Orientada neste sentido, a advocacia é, nos países moralizados, um elemento de ordem e um dos mais eficientes instrumentos de realização do bem comum da sociedade”.